15 fevereiro 2016

“Viver é a arte de quem domina os seus medos, vencendo com determinação os limites impostos pela pequena visão que encobrem as nossas dificuldades.”
 Darléa Zacharias

Um dia fui movida pelo impulso indecoroso da minha alma e por um sentimento de total responsabilidade pela minha vida, peguei-me pensando nas insanidades que cometi...
Eu vaguei pelos quatro cantos da dor, percorrendo os caminhos mais tortuosos que um ser humano poderia trilhar.
Eu dancei de rosto colado com a morte, presenciando o sepultamento do meu sorriso, e me mantive parada, sem ação, vendo o cortejo da minha vida passar. Chorei de aflição e impotência por querer refazer o caminho, mas não consegui. Afinal, para mim, o fim já estava consumado. Pensei que não poderia fazer mais nada, a não ser conformar-me com aquele triste final.
 Por várias vezes, andei madrugadas à dentro e noites a fora, procurando por pessoas que pudessem apenas me ouvir. Eu queria me fazer presente na vida delas de novo, só por alguns instantes, mas, me excluí.
Eu pensava incansavelmente em uma forma de reverter e mudar tudo aquilo que fiz, precisava apagar todo sofrimento que causei a quem me amava e a mim mesma. Queria uma maneira de repaginar o que vivi e amenizar, pelo menos um pouco, toda amargura que causei, mas ninguém me ouvia ou talvez não quisessem mais me ouvir. As pessoas se cansaram de mim e eu me cansei também.
Precisava parar de usar drogas urgentemente e reparar todo aquele mal. Porém, não via maneiras de consertar o que um dia quebrei com tanta velocidade e, então, me perguntava:
- poderia eu, um espírito morto, inerte, vazio de amor, rodeado pelos piores comportamentos e sentimentos, modificar a minha vida? Questionei-me. Ah, como persegui essa resposta. Tentei me punir, busquei a solidão, pensei estar presa ao purgatório dos eternos condenados. Mas, aleijar ainda mais com sentimentos de arrependimento e culpa uma alma que, por si só, já havia se mutilado, era pura bobagem e covardia. Ali, naquele momento, eu era o meu maior carrasco.
Eu só sei que precisava parar de usar drogas, perdoar-me e seguir em frente. Precisava aprender a lidar com aquela imensa dor do arrependimento que me quebrava os ossos. Não, não era tarde demais, pensei. Eu ainda estava viva e, embora não me sentisse mais assim, sabia que ainda existia, em algum lugar do presente, um fio de esperança. Embora a possibilidade de recomeçar fosse bem remota, era possível, eu sentia. Eu só tinha que acreditar, me transformar em Lázaro e levantar, com a ajuda de Deus, a tampa do sepulcro e ressuscitar. Precisava desesperadamente encontrar a vertente da minha primeira essência e rogar a Deus por um pouco de coragem para mudar. Mais eu ainda me sentia só... Já não tinha mais ninguém para torcer por mim. Ninguém me esperava para o jantar. Ninguém contava comigo para nada, parecia falar com as paredes... Era só eu, minha adicção e um fundo de poço sem fim. E, era naquele poço fétido que se abrigava o meu espírito acuado, machucado e cansado demais de se debater.
Muitas vezes, fiquei paralisada, envolvida pela voz do fracasso e sentia um frio percorrer a minha espinha, porque temia mais uma vez tentar mudar e não conseguir. Então, olhei para a minha vida e percebi que precisava ressurgir das cinzas e recomeçar do zero. Precisava recolher os meus escombros e prosseguir, mesmo sem saber para aonde estava indo. Precisava caminhar e seguir em frente, a qualquer preço e, mesmo que a caminhada fosse árdua, solitária e difícil, tinha que fazer um esforço ou não me perdoaria jamais por morrer como uma covarde fracassada, sem ao menos ter tentado ser feliz.
 Eu só sei que encontrei no vão entre o céu e o inferno um fio de esperança, me agarrei à ela...
Descobri que não sou trevas vagando na escuridão dos meus anseios, porém, preciso continuar a me enxergar, mesmo que, infelizmente, tenha me tornado para alguns, imperceptivelmente apagada...
 Hoje sei que sou luz  intensa em constante movimento...
 Darléa Zacharias

Trecho do livro Inimigo Oculto, foco, força e fé
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