12 janeiro 2011

Entrevista formulada pela comunidade "Crack, nem pensar".

Entrevista com Dárlea

Moçada, estou criando esse tópico para que possamos conhecer um pouco mais da história de vida da Autora Darlea Zacharias, que escreveu o livro " O árduo caminho de volta", ela que já viveu toda a experiência com a adicção ativa e está em recuperação há alguns anos. Postem suas perguntas tbm. Bjux. 




Darléa Zacharias

Agradecimento

Oi! Primeiramente gostaria de agradecer a todos desta comunidade, pela oportunidade de estar dividindo um pouco da minha experiência pessoal. Não tenho a pretensão de ensinar-lhes nada, falo apenas de mim e de tudo que passei nas garras da doença da adicção. Se, ao falar de mim, puder ajudar outras pessoas, já terá valido a pena tanta exposição.
 
Obrigada Xênia pelo carinho e respeito.

Responderei as perguntas por ordem numérica.

Um abraço a todos. Paz e serenidade, sempre! 

 

X- 1- Como foi o seu "encontro" com as drogas?

D: Comecei a usar alteradores de humor aos 8 anos, devido ao fato de ser uma criança hiperativa. Fui diagnosticada através de um profissional. Ele disse a minha mãe, que eu tinha desvio de comportamento. Na minha concepção, segundo os meus comportamentos, eu já era uma adicta, mesmo antes de ter usado a primeira dose.
Na adolescência me envolvi com o álcool, e mais tarde, aos 25 anos, conheci as drogas ilícitas. Daí, foi um pulo para degradação... Vivia para usar e usava para viver. Para mim, uma dose era demais e mil não bastavam. Mergulhei de cabeça em algo que estava me matando por dentro e por fora. 


X- 2- Com quantos anos iniciou? Conte nos um pouquinho desse período.


D: Então, como respondi anteriormente, os alteradores de ânimo e humor sempre marcaram presença em minha vida. Desde pequena eu já era uma criança arredia, difícil e extremamente tímida. Alternava ciclos de euforia e depressão. Em um momento, me achava superior e em outros, me sentia o pior dos seres humanos. Eu não me aceitava. Não aceitava a minha família. Vivia  dilemas emocionais constantemente.
Quando conheci as drogas, pensei ter encontrado a fórmula mágica para todos aqueles sentimentos, e para a minha grande inabilidade de viver.
Quando usava, não precisava mais me preocupar com nada. Meu senso de responsabilidade e direção, foi engolido pelo desejo de ficar mais e mais entorpecida. Nada me importava, a não ser conseguir a dose seguinte.


X- 3- O que te motivou a experimentar drogas?

D: Os meus sentimentos. Eu não sabia lidar comigo mesma e muito menos com a vida.
Existia um vazio. Faltava algo em minha vida que nada preenchia. Era um buraco na alma e uma falta de direção inexplicável.
Eu não conseguia conviver comigo mesma, nem com o mundo a minha volta. Então, preferia ser qualquer uma, mesmo eu mesma.
Não sei o que me motivou a usar droga, mas sei que fui levada pelo prazer momentâneo que ela me dava. 

X : 4- Quais os aprendizados que você pode tirar desse "inferno"?


D: Depois que conheci o programa de 12 passos, percebi o que exatamente acontecia comigo. Aprendi que sou portadora da doença da adicção. Ela é uma doença que afeta o físico, mental e espiritual.
O aspecto físico da doença, é a compulsão. A parte mental da doença, é a obsessão. E, o lado espiritual da adicção, é o total egocentrismo.
A obsessão me forçava a usar drogas repetidas vezes, mesmo sem querer. E, quando iniciava o uso com qualquer substância que alterasse o meu humor, não consegui mais parar por vontade própria.
Hoje, em recuperação, percebi que eu só pensava em mim. No passado, nada nem ninguém era mais importante do que o "meu" uso de drogas. Eu fazia qualquer esforço necessário para obter mais uma dose.
Aprendi que sou um ser humano limitado. Sofro de uma doença incurável, progressiva e fatal, que quer me matar. Mas, antes de matar ela me desmoralizará em todos os sentidos.
Aprendi, que tenho uma espécie de alergia mortal às drogas. Tal como o diabético, que ao descobrir a doença, percebe que se quiser viver, não poderá jamais consumir o açúcar. Assim sou eu, em relação ao uso de droga.
Sei que posso ter uma boa qualidade de vida, me mantendo abstinente de quaisquer tipo de droga. Pois, o sucesso do eterno tratamento para essa doença, depende da aceitação da minha impotência perante a adicção, e da forma que eu vou conduzir minha vida.
Mudando completamente meus hábitos, não usando haja o que houver e evitando pessoas e lugares da minha adicção ativa, encontrarei a maneira certa para deter a progressão da doença. 


X: 5- Como surgiu a ideia de se tornar uma escritora?

D: Bem, tornar-me escritora foi puramente por acaso. Nunca sonhei com isso. Nunca idealizei nada nem ao menos parecido. Mas aconteceu! E, foi muito gratificante poder dividir as minhas experiências com outras pessoas, que passam pelo mesmo pesadelo que vivi um dia.,
Um dia, sentei-me de frente ao computador, e comecei a escrever sobre mim. Tudo bem simples e despretencioso. Expus no livro algo no qual as pessoas se identificaram, este "algo" é o sentimento, que nos faz tão semelhantes.
Escrevi o livro em três meses e meio. Logo após o lançamento, percebi a responsabilidade de falar para mães e para centenas de pessoas, sedentas por informações práticas a respeito do uso de drogas.
Todos os dias, recebo dezenas de e-mails. Alguns deles me parabenizando, outros agradecendo por te escrito o livro, e outros, simplesmente desesperadores.
Vejo que escrever não estava em meus planos, mas estava previsto nos planos de Deus. Sei que abordar este tema é complexo, por isso repito que nada do que eu escrever aqui é terapêutico. Escrevo sobre o que vivi, e como faço para viver livre das drogas, um dia por vez. Tudo que digo é baseado nas minhas verdades, e é por isso que o livro deu certo. 
X: 6- você acredita que o seu livro contribui com outros adictos, de que forma?


D: Vejo tantas pessoas perdidas, tentando encontrar uma saída para esta doença, que dividir o que sei, é quase que uma obrigação.

Muitas outras coisas já foram escritas sobre a doença da adicção. O diferencial do meu livro, é exatamente o fato de ter o próprio adicto falando sobre degradação do uso e de recuperação. Isto, torna o livro mais verídico, e aproxima o outro adicto, desfazendo qualquer desconfiança.
Na maioria das vezes, o adicto não suporta conselhos de quem não passou pelo mesmo que ele está passando. Digo isso, por que outros adictos que leram meu livro, já me relataram que a experiência de um adicto ajudando outro adicto, não tem pararelo.

Quando o livro ficou pronto, ponderei em publicá-lo, por causa da tradição do programa de 12 passos, que refere-se ao anonimato. Porém, fui muito cautelosa. Tomei muito cuidado para em momento algum ferir esta tradição. Falo no livro sobre mim, e em nenhum trecho cito a irmandade. Tudo fica muito subentendido.

Como foi bom ter levado esta mensagem a pessoas que ainda sofrem, incondicionalmente.
Esta doença que não escolhe classe social, nem etnia. Ela instalou-se em nossas vidas epidemicamente, (só não vê quem não quer).
Ela atinge aquele que tem apenas um real, e também, aquele que tem um milhão, não importa.
A linguagem simplista do livro, me leva em base de igualdade até estes adictos. Isto é muito gratificante.
Me sinto afortunada por contribuir um pouquinho, e aliviar a dor de quem por várias vezes, já chegou até mesmo perder as esperanças.
Meu livro e a minha história devolve novas perspectivas a quem está procurando respostas e saídas cotidianas para lidar com a adicção. 

X :7- O que é mais difícil em se "manter em recuperação"?

D: No início, tudo era muito difícil. Ter que lidar com as coisas novas, simplesmente me apavorava.
Sempre fui teimosa. Achava que fazendo do meu jeito, daria certo. Por isso, passei por recaídas constantes. 

O programa de recuperação só funcionou para mim, a partir do momento que me rendi e admiti minha impotência a pessoas, lugares e hábitos.
Para me manter em recuperação, tive que reformular toda a minha vida. Abandonar as velhas amizades, mudar minhas maneiras distorcidas de lidar com a realidade, e voltar para aquela sociedade que um dia, tanto desprezei.
Hoje, as coisas são mais leves, por que venho aprendendo a viver um dia por vez. É como se  a vida se dividisse em pequenas partes. Isto simplifica muito.
Mas, ainda tenho dificuldades, como todos os seres humanos as tem.
Ainda hoje, evito permanecer por muito tempo em lugares que possam colocar a minha recuperação em risco. 

A responsabilidade pela minha recuperação é minha, por isso, tenho que me manter sempre vigilante.
Hoje, levo uma vida normal. Vou a praia, cinema, festas, shows... Enfim, não me sinto mais incomodada. Pois, não associo mais estas coisas com drogas. Quando vou a um determinado lugar e começo a me sentir inábil, vou embora rápido.
Hoje, depois de 8 anos limpa, as "armadilhas" da doença são mais claras. Dificilmente a doença me enganará, a não ser que eu permita. 

X: 8- Como sua família agiu diante de sua adicção ativa?

D: Quando comecei a usar drogas ilícitas, eles estranharam. Porque o álcool é uma droga "aceitável" perante a sociedade, mas as outras drogas, as ilícitas, não.
Potencializei meus defeitos de caráter, a cada dose. As mentiras e as manipulações eram sempre constantes.
Meu marido, naquela época, pirou. Um dia, ele mandou que eu escolhesse entre ele, os nossos filhos, ou continuasse usando drogas. Eu falei:
Pode ir embora! Eu escolho as drogas. A partir daquele momento, fique sozinha.
Eu achava que não poderia mais voltar atrás. Pensei ser tarde demais.
Um dia, fui internada á força pelo meu ex marido e pela minha mãe. Senti muito ódio. Eu achava que eles queriam se livrar de mim e do grande problema que eu havia me tornado. Hoje, vejo que fizeram a coisa certa. Me preservaram de mim mesma e das minhas insanidades. Hoje, eu agradeço a eles por estar viva. Se eu não fosse retirada de circulação, não estaria aqui, neste exato momento, contando-lhes esta história.
Minha mãe, nunca facilitou o meu uso. Ela sempre me tratou com mão de ferro. Isso também me ajudou bastante. Pois, amor doentio e facilitação, mata o adicto.
Hoje, acabei virando o pilar da família. Sou referência no quesito "volta por cima". Mas não me iludo. Sei que sou portadora de uma doença incurável. E, por mais que o tempo passe, serei sempre uma adicta em eterna recuperação.
Casei-me novamente. Meu marido também é um adicto em recuperação.
Muitas coisas aconteceram nestes 8 anos. Hoje, tenho que pedir muita sabedoria a Deus para lidar com os adictos da minha vida. Me refiro a meu irmão, marido, genro e sobrinhos.
Esse é o grande barato da vida. É essa caixinha de surpresa que está reservada a nós. Jamais imaginei ter condições de ajudar alguém que estivesse nas garras das drogas. Hoje, isto acontece todos os dias, bem aqui em casa. 

X: 9- Como é sua relação com seu filho hoje? Você acredita que os pais devam ser liberais ou um pouco controladores? Qual seria o "meio termo"?

D: Tenho dois filhos maravilhosos. O rapaz tem 22 anos, e a menina acabou de fazer 16.
Sou muito abençoada em ter filhos mentalmente saudáveis, e livre de drogas.
Meus filhos, nunca me deram trabalho, graças a Deus.
Temos uma relação bonita, cercada de muito amor, carinho e respeito. Construí isso ao longo da minha recuperação. Me orgulho muito em ter tido a oportunidade de educá-los. Fiz de tudo para criá-los dentro de um padrão familiar tradicional (seguindo os preceitos impostos pela sociedade, dando-lhes valores, limites, moral e bons costumes).
Sou uma mãe muito amiga, mas, também, controladora.
Tento encontrar sempre o meio termo... Nem tão severa, nem tão permissiva.
Converso abertamente sobre tudo com eles. Falo sobre sexo, camisinha e principalmente, sobre drogas.
Mostro reportagens na TV e cito a minha própria história. Sou bem explícita nesta questão. Explico-lhes, que eles podem ter uma pré disposição orgânica a tornar-se um dependente químico, ou podem virar um, devido ao uso. 
 Quando meu filho começou a beber a cervejinha dele (depois dos 18 anos), tive uma conversa bem séria a este respeito. Disse-lhe que eu não poderia proibir o uso de álcool, mas era meu dever alertá-lo dos malefícios desta droga tão devastadora quanto as demais. Com o agravante de ser lícita, tornando- a mais silenciosamente perigosa.
Você me perguntou qual seria o "meio termo"... Meu meio termo é muito amor e mão de ferro. É dar carinho nas horas certas, e cobrar o que tiver que ser cobrado.
É ter uma relação de troca.
É aprender a dizer não.
É tentar colocar-me no meu lugar, assumindo o meu papel de mãe.
É nunca passar a mão na cabeça deles. Se errarem, devem saber que existirá sempre um preço a ser pago.
E, finalmente amar, amar muito. Mesmo que a maior prova de amor que eu possa dar, seja uma punição. 

X:10- Qual é o peso da família em tudo isso, durante todo o processo de adicção e tbm de recuperação?
 
D: A minha família, naquela época, não era bem informada sobre a doença da adicção.
Para eles, ou eu estava ficando louca, ou tinha perdido a vergonha de vez.
Não tive apoio, conversas, esclarecimentos, nem tratamentos em clínicas para dependentes químicos.
Logo que conseguiram, me internaram em um hospital psiquiátrico.
Hoje, depois de tudo que viveram comigo na minha adicção ativa, adquiriram uma certa experiência , e mudaram a forma de pensar. Principalmente admitindo que a adicção é realmente uma doença, e não uma deficiência moral.

A família é uma peça fundamental para a recuperação. Não que o desejo de recuperar-se dependa  dela. Mas, para o adicto saber que existe um porto seguro e um apoio emocional, é muito importante.  

O que é mais difícil para o familiar, é perceber até onde ir com esse "apoio". Geralmente, confundem ajuda com facilitação, e assim, acaba por prejudicar mais ainda o processo de rendição e chegada a um fundo de poço, que inevitavelmente seu adicto terá que passar.

X: 11- O 2° livro já está sendo editado? Fale nos sobre ele, ok?


D: Meu segundo livro, ainda está em fase de acabamento.
Neste livro, falarei mais a fundo, sobre sentimentos e comportamentos adictivos.

Falarei também, de que forma venho lidando com a minha Codependência.
Citarei, como vivencio na prática diária, o método funcional, utilizado pelo programa de 12 passos da irmandade Nar- Anom.

Até o final do ano, se Deus quiser, ele já estará publicado. 

X: 12- Qual é a importância de um relacionamento afetivo/amoroso na recuperação ou não de um adicto? O que você pensa sobre isso?

Xênia, as orientações que recebi do meu padrinho de recuperação, foi que não me envolvesse sexo afetivamente com ninguém, até completar um ano em recuperação.
A área de relacionamento é uma das mais difíceis para o adicto. Basta pararmos para pensar por alguns instantes, para chegarmos a um denominador em comum: Como uma pessoa que saiu recentemente das drogas, poderá ter condições de dar "algo" a alguém? Esta pessoa, ainda não sabe o que é amar, por que ainda não aprendeu como amar a si mesma.
Tenho uma sugestão a passar, que me foi dada, e funcionou: Se está casado, no início da recuperação, continue casado. Se está solteiro, permaneça como tal. Não tome nenhuma decisão drástica até um ano limpo.
Este "tempo", é essencial para que a pessoa aprenda a se amar, valorizar-se, respeitar-se e trabalhar auto estima. Foi assim que eu fiz, e posso afirmar-lhe que abrir mão de bengalas emocionais, foi a melhor decisão que tomei. Pois, parei de procurar nos outros, o que eu mesma deveria me proporcionar. Parei de tapar meus "buracos" emocionais, usando as pessoas. 

X: 13-Você considera de extrema importância a participação nos grupos para manter a sobriedade?

D: O programa de 12 passos salvou a minha vida.

Acho de suma importância as reuniões em grupo de mútua ajuda. Lá, adictos falam livremente do seu dia a dia. Aprendem a lidar com o mundo, consigo mesmo, com os outros e, principalmente, com os próprios sentimentos.

Através da prática diária dos 12 passos, pude perceber que o meu problema, estava muito além do uso de drogas...
Eu sofria de uma doença também comportamental. Que afetava o meu físico, mental e o espiritual. Por isso, após 14 anos que conheci a irmandade, ainda continuo voltando.
Lá, aprendi que eu precisava mudar urgentemente as minhas antigas maneiras de pensar e agir, senão ficaria voltando a primeira dose.
O programa de 12 passos, mudou em mim, características imutáveis, até então.

Este programa universal, simples, gratuito, acessível a todos, fez uma verdadeira revolução na minha vida.
Frequentar reuniões, além de ser imprescindível para manter a minha abstinência física, me deu suporte para tratar em um nível mais profundo as minhas emoções. Identificando dia após dia, os meus defeitos de caráter. 

X: 14- O que a motivou deixar pra lá as drogas e partir para uma vida nova?

D: Não deixei para lá as drogas, tive que parar ou morreria.
Cheguei a um ponto, que não tinha mais escolha. Já tinha perdido tudo, meus filhos, meu marido e a minha dignidade.
Quando eu estava na minha segunda internação, olhei a minha volta e percebi o que eu havia feito com a minha vida, por causa das drogas.
Eu não aguentava mais sofrer. Eu era um ser humano que não funcionava com ou sem drogas. Tudo parecia não ter sentido. Era uma dor indescritível.
Olhar a minha vida como estava, me causava um sentimento de fracasso muito grande. Eu não precisava só parar de usar, precisava mudar!
Ver o sofrimento no olhar dos meus filhos e ver a que ponto eu havia chegado, me motivou a querer tentar algo que até então eu não queria: Ficar limpa!
Precisei zerar tudo para recomeçar uma nova vida. 


X:15- Deixe sua mensagem a todos que igualmente passam pela provação de lutar diariamente contra a dependencia quimica. Aos seus familiares, namorados(a) e esposos(a).

D: Para os adictos:

A adição não é uma deficiência moral. Ela é uma doença progressiva, incurável e fatal. Que mata desmoralizando.
Ela leva a três caminhos: Prisão, instituição e morte.
Usar drogas, é fazer roleta russa com a própria vida.
Para um adicto, não existem meios seguros de usar qualquer tipo de droga.
A adicção é a doença da obsessão e da compulsão. A obsessão é aquela ideia fixa, que leva o adicto sempre de volta a primeira dose, mesmo sem querer.
A compulsão acontece quando usamos qualquer alterador de humor e não conseguimos parar por vontade própria.
Se você é um adicto, saiba que para você, uma dose é demais e mil não bastam.

A droga te roubará seus sonhos e a sua dignidade. Ela te transformará em uma pessoa que você não quer ser.
Talvez, você se ache diferente de mim, devido ao teor da minha trajetória com as drogas. Mas, eu não falo aqui apenas de substâncias ou quantidade de droga. Eu falo de uma doença comportamental e mortal. Que afeta todas as áreas das nossas vidas. E, ela é progressiva. Tenha a certeza de que tudo que você não fez e passou, se continuar usando, fará e passará. Pode acreditar!

Usar drogas, é ter na estante da vida muitos troféus de derrota.
Não importa o que ou quanto você usou, a recuperação é possível a todos, sem exceção.

É possível parar de usar, perder o desejo, e encontrar uma nova maneira de viver, basta querer.
Desperte enquanto é tempo. Faça isso por você, hoje! Não espere mais.
Peça ajuda!
Boa sorte, e coragem, vai precisar muito. Acredite! 

Aos familiares:

Lidar com um adicto não é fácil. Chega a ser desesperador.
Quando tentamos ajudá-los e não conseguimos, amargamos na nossa impotência.
A adicção não é uma doença contagiosa, mas é contagiante. E, adoecemos quando tentamos controlá-los, e quando insistimos em colocá-los a força na direção certa. Infelizmente, sentimos dor, e neste momento, percebemos que também precisamos de ajuda.
Precisamos cuidar de nós mesmos e admitir que não podemos mudá-los!
Podemos cuidar do nosso mental e espiritual, para que na hora que o pedido de ajuda vier, (se vier), estejamos fortalecidos para ajudá-los.
A família é muito importante para a recuperação do adicto. É bom saber que alguém se importa conosco. Mas, precisamos ficar atentos as manipulações. Como eu disse antes, amar é dar limites. Precisamos entender que as pessoas só fazem conosco, aquilo que permitirmos que elas façam.
Não existe fórmula mágica para a recuperação, tanto do adicto, quanto para o familiar. Existe uma forma que funciona que é viver um dia por vez. Lidando hoje, com as dificuldades de hoje. Encontrar um poder superior e se agarrar a ele, é vital.
Examinar com honestidade o nosso papel na relação e darmos o nosso melhor primeiramente para ajudar a nós mesmos, também funciona.
Xingar, gritar, ameaçar, não adiantará. O que funciona de verdade é a assertividade.

Eu apoio a ideia de quanto mais depressa o adicto voltar a sociedade, mas rapidamente ele se recuperará. Foi assim comigo. Minha mãe, me pressionava direto para que eu voltasse ao trabalho, e aos estudos. Ela estava certa... Quando eu ficava parada em casa, só pensava besteira; "Mente vazia é oficina do demo"!

Hoje, sei que a minha família me amava. Amavam da forma como podiam me amar, e não da maneira que melhor me conviesse.

A minha família é a base de tudo para mim, mas eu precisei me modificar para entender que eles também precisavam se preservar da minha doença. Adotando um frio desligamento emocional, se protegiam das minhas insanidades.
No fim das contas, a forma dura que me trataram, me ajudou a sentir falta de tudo que deixei para trás, e de todo o carinho que eu tinha, e não dei valor. 

X: 17- Chegaste a ficar internada em Centros de recuperação?

D: Não... Não tive esse luxo, rs. Até por que, eu fui muito fundo em minha adicção ativa, e cheguei ao fundo de poço muito rápido.
Eu tinha como fator hiper agravante a negação.
A minha família, ficou muito perturbada e confusa com o meu comportamento. Realmente, eles não sabiam o que fazer comigo. Sabiam que eu me drogava. Mas, da maneira como eu negava o uso, e não queria ser ajudada, era inviável um tratamento em centro de recuperação. Eles não conseguiam "por a mão em mim". Fiquei fugindo durante 1 ano.
Eu os deixava de pés e mãos atados. Neguei até me destruir quase que por completo, e por isso, fechei qualquer porta para um tratamento especificamente para adicção.
Para que você tenha uma ideia do estágio da minha doença, eu consegui manipular uma junta médica inteira, negando veementemente o meu uso de droga. E, por isso, fui diagnosticada: Maníaca depressiva, Esquizofrênica e dependente químico em último estágio.
Disseram á minha família que o meu caso era irreversível. Os médicos os alertou para que já fossem se conformando com isso, pois, eu não tinha mais nenhuma condição de convívio social. Para eles, eu era um caso sem volta... 


X: 18 - Acha que os formatos de clínicas de recuperação são os desejáveis e melhores para esse "renascimento", restauração?


D: Acredito que existam clínicas sérias. Clínicas que trabalham com os 12 passos, são infinitamente melhores.
Geralmente, quando o adicto não pode pagar por um centro de recuperação, ele amarga a procura de uma vaga em algum CT. Passam os dias dopados, sem nenhuma atividade física, ou terapia ocupacional. Usam drogas lá dentro, e outras coisas mais. Tudo isso, teoricamente patrocinado pelo governo.
A verba que o governo libera para ser destinada a centros de recuperação é uma piada.

Olhem só a chamada do governo para a abertura de um centro de tratamento, aqui no Rio de Janeiro:

"O pontapé inicial foi dado na segunda-feira passada, quando os secretários José Mariano Beltrame (Segurança), Sérgio Cortes (Saúde) e Tereza Porto (Educação) visitaram a sede do antigo hospital – fechado desde o ano passado – e trocaram ideias comuns na batalha contra a dependência química.
A nossa meta é integrar as três secretarias para ajudar na recuperação do usuário que busca a sua recuperação. O centro receberia crianças e adolescente dependentes de crack, e teria capacidade para atender cerca de 40 paciente. Os custos e o início das obras ainda não foram definidos. O hospital vai ser todo remodelado para cuidar dos dependentes químicos – diz Beltrame."

Queridos, o consumo do crack já se disseminou As estimativas mais conservadoras são de que o consumo do crack leve cerca de 300 mil pessoas à morte nos próximos seis anos. Estamos falando aqui de 300 mil pessoas e o governo fala de "40 vagas" Acho que não estamos falando da mesma coisa, será? 

 Quando meu sobrinho-filho estava no crack, vaguei, procurei, liguei, implorei por uma vaga em alguma instituição pública e só encontrei as portas fechadas.
Minha irmã, não podia pagar por uma clínica particular. Não tínhamos condições de custear um tratamento. Quando consegui alguma coisa, foi em um hospital psiquiátrico chamado Francisco Espínola.
Meu Deus! Aquilo era uma visão do inferno. Vi as pessoas sendo tratadas como bichos. Muitas delas, ficavam amarradas ou em jaulas. Vi também, muita droga. Todos ficavam absurdamente drogados por psicotrópcos.
Graças a Deus, meu sobrinho permaneceu lá apenas 30 dias. Logo após saiu e foi procurar ajuda em grupos de mútua ajuda. Hoje, ele está bem. Está casado e trabalhando.

O programa de recuperação funciona para quem quer! 

OI DARLÉA

AGORA SIM , CONSEGUI LER O TÓPICO COM CALMA, ME VI E AO GUILHERME AO LONGO DE TEUS RELATOS.
ME PARECE LUGAR COMUM QUE A MUDANÇA SÓ ACONTECE QUANDO EXISTE MAIS DO QUE O DESEJO DE TRANSFORMAÇÃO, É NECESSÁRIA MUITA RENUNCIA, MUITA DISCIPLINA E UMA ENORME DOSE DE CONSCIENCIA.
ESPERO QUE POR AQUI POSSAMOS CRIAR ( EU E O GUILHERME ) UMA HISTÓRIA VENCEDORA.
ABRAÇO 

Júlia

D: O desejo de mudança e a vontade obstinada de ficar limpa, haja o que houver, foi o que me proporcionou permanecer até hoje em recuperação.

Ficar limpo não é tão difícil, mas é preciso mudar. Senão, logo os velhos comportamentos voltam, a mente fecha e a pessoa volta ao uso.

O adicto tem dois sentimentos que é um perigo: Um é a euforia, e o outro é a depressão. Por isso, é tão importante encontrar um poder superior e pedir a ele por sanidade, e sempre buscar equilíbrio emocional e mental, através da meditação diária.

A minha opinião a respeito de tratamentos, internações, procura de ajuda através de religião, e outras coisas mais, é a seguinte:
 

Todo tratamento é valido, toda ajuda é bem vinda, mas ninguém pode incutir uma idéia nova em uma mente fechada. O adicto tem que admitir que a sua vida está incontrolável, e ter a consciência de que não é aquela ultima dose que arrebenta a vida dele, mas sim aquela primeira. A partir desta simples rendição, tudo pode mudar, só dependerá dele.
O mundo não vai parar para o adicto passar. As pessoas continuarão bebendo e usando. Quem não pode é o adicto, e isso deve ficar muito claro. 
Para permanecer em recuperação, tive que abandonar pessoas, lugares e mudar os hábitos da ativa.
Precisei ser honesta comigo mesma, e admitir, todos os dias que tenho algo dentro de mim que grita o tempo todo pelo fracasso.
Precisei entender que tenho que ficar limpa, por que quando uso droga, a minha vida fica incontrolável.
Ainda hoje, depois de um tempo substancial em recuperação, peço ajuda quando vejo que não estou bem, ou quando começo a ficar irritada e intolerante.

Quando uma pessoa está com dificuldade de ficar limpa, e começa a ter recaídas constantes, é por que está agarrada as reservas. Lá no fundo ela ainda pensa que poderá usar drogas controladamente.
Sei que muita gente, tem dificuldade de ficar abstinente. Eu também tive. Mas, também sei que é possível não usar um dia por vez. 

Vejo este "milagre" acontecer todos os dias em minha vida. Logo eu que vivia para usar e usava para viver...
Se eu estou conseguindo, qualquer um poderá conseguir também, BASTA QUERER!





Qual ou quais os sentimentos ou comportamentos que hj em dia vc toma mais cuidado e certas precauções para lidar com eles e manter sua recuperação de uma forma que lhe proporcione mais bem estar em conseguir ficar limpa?

Como disse anteriormente, devido à adicção, todos os meus sentimentos são exagerados.
Uma pessoa "comum"  fica triste, eu me deprimo...
Uma pessoa "normal" fica feliz, enquanto eu, fico eufórica.
Tudo em mim, vai de um pólo ao outro, muito rápido.
Posso estar rindo em um minuto e no segundo seguinte, aos prantos.
Por isso, tenho que tomar cuidado com os meus pensamentos distorcidos, que  sempre geram em mim sentimentos que muitas vezes não sei lidar.
Geralmente, o sentimento de autopiedade me detona. Quando me coloco como vítima, me arrebento. Por isso, fico sempre atenta. 
Quando me pego auto piedosa, rapidamente procuro mudar o pensamento, para modificar aquele sentimento.
Para permanecer limpa, evito os velhos comportamentos do passado. 
Não ando com pessoas que se drogam, não frequento locais de ativa, evito a  raiva, o medo e a intolerância. 
Todos os dias travo uma batalha contra o meu maior inimigo: Eu mesma!