27 setembro 2012

Entrevista ao Mix Cultural

Conflitos, desilusões, crescimento conturbado, fuga, drogas.
Esta autobiografia é o exemplo perfeito de como uma vida pode começar completamente conturbada, seguir por caminhos tortuosos, se perder por completo, conhecer a morte de perto, mas conseguir se encontrar, abraçar uma fé imprescindível no amor de Deus e na vida e buscar novos caminhos para se manter longe das drogas. 
Darléa sentiu na pele o lado obscuro do ser humano, se entregou à morte, mas superou suas dificuldades, suas compulsões e reescreveu sua história.

(Leiam com atenção, temos sempre alguém que conhecemos passando por esta situação)



P: Em sua obra, você deixa bem claro que procura não acusar ninguém ou colocar culpa em ninguém para motivar sua fuga da realidade e seu início nas drogas. Em sua opinião a criação e o cuidado na educação podem afetar a entrada de pessoas no mundo das drogas?
 R: Sim, não posso mais culpar pessoas lugares e coisas pelo meu uso de drogas, este foi um comportamento destrutivo que ficou lá no passado.
Passei toda a minha vida tentando encontrar uma justificativa para meu uso e me auto fragelar.
Usei as desculpas mais absurdas para levar adiante uma vida de insanidades. Hoje em recuperação, tendo que olhar vida com responsabilidade e assumir minha parcela de culpa, sem cobrar nada de ninguém, sem ressentimentos.
Eu que fui até um ponto de venda de drogas e comprei minha morte à prestação.
Um suicídio lento e insano. E, para me recuperar eu precisava retirar o véu da ignorância. Ver que as pessoas me deram o que elas podiam me dar, das suas próprias maneiras, a maneira como recebi isso que foi distorcida pela minha mente adoecida.
Cansei de cobrar dos outros coisas que somente eu poderia me dar como: Amor, carinho, atenção e respeito próprio.
Hoje, sei que sou responsável pela minha vida e pela minha recuperação, não me cabe mais tentar encontrar culpados, mas fazer parte da solução. Me perdoando e perdoando as pessoas que passaram pela minha vida. Só assim, sem mágoas a minha caminhada ficará mais leve e poderei prosseguir em paz. Perdoar a si mesmo e aos outros é um ato de amor consigo mesmo.
P: para motivar sua fuga da realidade e seu início nas drogas. Em sua opinião a criação e o cuidado na educação podem afetar a entrada de pessoas no mundo das drogas?
R: Vim de uma família empobrecida emocionalmente. Fui criada em um lar em desarmonia e confuso. Vejo que eu poderia ter sido melhor orientada. Mas minha família fez o que achava que era melhor para mim, mesmo que na realidade não fosse.  Por outro lado, vejo pessoas que foram educadas em lares estruturados e mesmo assim, torna-se adictos(usuários de drogas).
A adicção é uma doença comportamental, e o desenvolvimento independe de classe social. Ela é uma doença da família, pois apesar de não ser contagiosa é completamente contagiante.
É claro que uma família presente, um lar onde exista um diálogo honesto e sincero, amor, contribuí para a formação de um adulto mais seguro e menos tendencioso ao uso de droga. Conheço pessoas que foram criadas a esmo e nunca usaram drogas, já outros, que foram criados em lares harmoniosos, religiosos, com amor, carinho, diálogo e se tornaram ferrenhos usuários, realmente é um paradoxo, a adicção não discrimina.
P: Quais foram os momentos mais difíceis para você no processo de limpeza do seu organismo?
R. O início da recuperação foi bem complicado. Passei por momentos em que pensei que não fosse conseguir ficar limpa. As crises de abstinência me consumiam.
Confusão mental, dores musculares, cansaço, apatia, coceiras e dores de cabeça constante, me esgotavam física, mental e espiritualmente. Pensar no futuro, em como seria minha vida sem as drogas me deixava desesperada. Este processo durou três meses, até que comecei a desenvolver uma fé em um Deus amoroso, que não tinha nada haver com religião, mas sim com uma força descomunal que tinha dentro de mim, e eu não enxergava, ela era encoberta pelo desespero do uso.
Esse Deus, me carregou no colo nos momentos em que eu não tinha mais forças.
Procurei compreender que o processo de recuperação era lento, dolorido, mas completamente possível. Entendi que o futuro era algo inusitado e que eu só poderia viver o presente, um dia de cada vez. Comecei a fazer acontecer, vivendo sem pensar no amanhã. Fazendo por mim  só as coisas que eu poderia fazer naquele dia. Sem planos, construindo metas e esquecendo as expectativas, mudei o rumo da minha história.
Recomeçar do nada, morrendo de medo da vida, não é fácil… Mas, percebi que se eu pedisse ajuda a outras pessoas que já haviam passado pelo mesmo que passei e estavam conseguindo, eu também poderia reescrever a minha história.
P: Você é vitoriosa e sempre foi protegida por Deus, infelizmente muitas pessoas não têm a mesma “sorte”. Sua obra é um relato sério e bem explícito sobre verdades muitas vezes escondidas. Você sente que consegue tocarpessoas “perdidas” nas drogas com suas palavras?
R: Sinto que sou uma privilegiada em estar limpa. Eu poderia ser apenas mais uma anônima nesta triste trajetória de uso de drogas. Pessoas que vivem e morrem sem conhecer uma maneira limpa e digna de viver. Mas, eu busquei e ainda busco reformulação de  vida e recuperação para esta doença que não tem cura, mas pode, através da completa abstinência, ser detida em algum ponto.
Muitas vezes, é melhor não mostrar a realidade do uso de drogas. Muitas pessoas sofrem com a dependência química pensando que estão sozinhas nesta guerra e não estão. Droga é mais comum do que se pensa. As drogas são o mal do século. Estamos vivendo uma epidemia e seria egoísmo da minha parte ter vivido tudo que vivi e não compartilhar com os outros um pouco de esperança. Levar esta mensagem de que é possível parar de usar, perder o desejo de usar e encontrar uma nova maneira de viver, basta querer.
Esta doença mortal, não afeta só aqueles que vivem a margem da sociedade, ou o filho da vizinha e o da empregada. Ela entra traiçoeiramente em nossas vidas, e em um piscar de olhos, dizima a nossa família.
Meu livro fala disso, exatamente sobre isso: Esperança!.
Pela vida maravilhosa que levo hoje, seria mais fácil tentar esquecer o que vivi, deixando todo este passado de miséria com as drogas bem escondido embaixo do tapete. Mas isso seria puro egoísmo. E, compartilhar o que passei e como venho me recuperando é um ato de coragem e gratidão a Deus.
Meu livro está ajudando muita gente. Pessoas que um dia perderam a esperança, mães desesperadas que buscam tentar entender como puderam perder seus filhos para as drogas, apesar de todos os seus esforços. Recebo todos os dias dezenas de e-mails de pessoas me agradecendo por compartilhar a minha história. Estas pessoas estão conseguindo também, isso para mim, não tem preço.
P: Um dia de cada vez. Hoje sua vida é completa e cheia de felicidade, se a Darléia de hoje pudesse escrever uma carta para a Darléia nas drogas, o que você diria a ela?
R: Primeiramente eu tentaria olhar para aquela Darléa com olhos  de misericórdia, pois ninguém em sã consciência quer uma vida miserável dessa para si. Tentaria me aproximar com cautela, daria amor, mas também seria dura quando fosse necessário.
Diria a ela que não importa em que ponto de degradação tenha chegado, sempre é possível reverter, basta querer. E, para se render é preciso dar o primeiro passo, pedindo ajuda e admitindo que sua vida está incontrolável. Pediria a ela que não desistisse de si mesma e que existe uma vida bacana para se viver, independente de qualquer coisa. Uma vida nova, limpa e digna, cheia de desafios e novidades. Que é possível mudar o rumo da própria história. Que ela deve se amar, e se autoaceitar e acreditar que o melhor ainda está por vir. E, que nada nesta vida é definitivo e para atitude positiva da parte dela, a vida retribuirá com um sorriso.
Falaria para ela erguer a cabeça e se colocar de pé, mesmo que não saiba para onde ir, tentar já é um bom caminho. Tente ser feliz, a vida é feita para isso.
Drogas não são e nunca serão sinônimo de diversão e felicidade, pelo contrário, ela só causa desespero e dor, mesmo que a longo prazo. O final do uso é prisão, instituição e morte, não necessariamente nesta ordem. Ás vezes a morte pode vir primeiro… Falaria para ela acordar para a vida enquanto é tempo, pois quem não abraça  a felicidade quando ela chega, não adianta chorar quando ela for embora.
Força, fé e esperança sempre, pois eu acredito em você!
P: Sua escrita é clara e agradável, realmente você tem um lindo dom. Conte-nos sobre seu novo livro.
R: Tentei escrever um livro de linguagem simples e coloquial. Onde qualquer pessoa pudesse suprir suas necessidades de informações sobre este tema tão complexo.
O livro tem uma mensagem forte e dinâmica, que prende o leitor pela veracidade dos fatos, sem restrições de idade para leitura.
Já em meu segundo livro, ainda em fase de acabamento, falarei sobre codependência e sobre outras histórias verídicas de superação ou não.
Sei que tenho uma missão e estou feliz em poder ajudar outras pessoas a encontrarem o caminho da recuperação.
Sua mensagem final:
A vida não para de acontecer. O tempo é hoje, agora!
Não existe caminho sem volta. Nosso caminho nós mesmos traçamos aqui neste momento.
Nesta vida somos meros aprendizes dos nossos próprios erros.
Só temos uma certeza: a de que um dia morreremos, então que possamos viver esta vida, que nos foi emprestada por Deus amoroso da melhor maneira possível.
As drogas nos fazem covardes e omissos. Nos tornamos passionais e permissivos. Aceitamos a condição de escravos usando para viver e vivendo para usar. Mas, não nascemos para sermos escravos do químico e dos nossos maus comportamentos. Temos escolha quando decidimos não sermos mais controlados.
Podemos optar pela vida e pelo novo que se inicia, a cada dia. Esqueça aquela velha e mentirosa frase que diz: Pau que nasce torto não tem jeito. Não somos madeira, somos humanos e plenamente capazes de discernir o que nos fará um perdedor ou um vencedor. E, as drogas sempre nos fará perder em alguma área de nossa vida. Não importa o tempo que levará, chegaremos ao fundo de poço quando descobrirmos que não funcionamos como seres humanos com ou sem droga. Com o uso, nos tornaremos sobreviventes, envoltos ao caos da desesperança.
Nascemos livres e limpos e deturpamos tudo. Buscamos subterfúgios para nossas dores nas drogas, nos tornando irresponsáveis e complacente com a derrota. Mas, só poderemos nos reencontrar quando voltarmos a estaca zero, e rendidos, aceitarmos que não é possível usar droga e ser feliz!
A vida está em nossas mãos, o que decidiremos hoje? Ser feliz ou amargar na frustração?
Não falo de adicção cientificamente, mas falo com a propriedade de quem um dia viu a morte de perto e só quem passa por isso é quem sabe como dói, ser uma fantoche, um brinquedo nas mãos do palhaço. Todos sofrem com um adicto na adicção ativa, mas só quem vivencia os horrores da adicção, pode entender o quanto é difícil este caminho.
Mas, para nos recuperarmos não podemos nos agarrar ao fato de que é dolorido demais olhar a vida sem anestésicos. Temos que nos concentrar no leque de possibilidades e nas probabilidades de  nos tornarmos pessoas melhores para nós mesmos e para os que nos cercam, vivendo sadio, livre e limpos, sem medo de ser feliz.
Se você conhece alguém que tenha problemas com drogas, sugira os grupos de mútua ajuda, que seguem a filosofia de vida baseada em 12 passos. Lá,  já vi vários milagres acontecerem, inclusive eu sou um deles. Funciona mesmo!


Dados Técnicos:
Drogas. O Árduo Caminho de Volta. Coragem para Mudar! 
Darléa Zacharias